
A Mulher de Flores
Quando as flores caem, na primavera, ela nasce. As flores moldam seu rosto delicadamente e seu corpo se faz das folhas, galhos e flores. Seus cabelos são feitos dos fios de grama e trigo. Ela traz beleza e pureza dentro de si para dar suporte e vida e alimenta a floresta e seus seres com sua energia e carinho. Quando o verão chega e a mulher se nutre do calor e das chuvas. Então, o outono vem e juntamente com as árvores suas folhas e flores se desfazem e seu espírito volta à terra para esperar uma nova primavera. No inverno, ela descansa para ter forças, para se recriar e trabalhar ao som mágico das plantas que crescem. Assim, ela sente a vida fluir e refluir dentro dela e sente prazer em todos os momentos. Seu espírito dança quando sente a vida pulsar e celebra junto com a lua. E, no seu processo de ir-se com as folhas outonais, ela celebra com gritos alegres e juvenis a volta para casa. Eu a vi, outro dia, quando varriam as folhas do parque. Todos os anos, ela faz seu trabalho e sua alegria transborda nos seus protegidos. Ela só é vulnerável e fraca na hora mágica em que a Deusa lhe dá um sopro de vida.
E foi nesse instante mágico que seus olhos pousaram em um homem nu, dormindo entre as folhagens. Ela o olhou se sentiu curiosidade e a magia de sua criação ainda se fazia e ela o tocou para saber se aquela estranha criatura tinha vida. Ele abriu os olhos e ela se afastou assustada. Ele estava ferido. Ao ver suas feridas, ela o tomou em seu braços e cuidou dele e mostrou a ele seu mundo com as cores vibrantes e suaves que emanavam dela. Ela repartiu a vida que dava vida com ele e com seus sempre amados filhos. A mulher vestiu o homem com as folhas e flores que caíam das árvores. Ela o alimentou e o agraciou com os sons das plantas que cresciam. Eles dormiam soba s estrelas e ouviam os sons de alegria do entardecer. O homem aprendeu a ouvir a música da chuva... E a mulher aprendia com ele sobre as coisas da vida além das florestas e jardins. Então, veio o outono e as folhas e flores caíram do corpo do homem e a mulher se desfazia e o corpo dela voltou para a terra. Ele deitou-se no chão enquanto o espírito dela voltava para o lar. Ao se desfazer, ela conheceu o medo e a dor e chorou o orvalho primaveril e ele a acariciava no chão. Suas formas ficaram ali e o homem voltou para seu mundo. Aquele inverno teve sabor de primavera.
O homem encontrou uma flor suave e única em sua solidão, no meio da neve. O príncipe se ajoelhou e a cheirou, colocando aquela flor perto de seu coração. Onde a encontraria? Mas, ele teve que seguir para uma batalha e ela sentiu o toque das mãos do homem. Seus espírito estava espalhado por toda a terra, agora. A mulher ouviu as batalhas e sentiu o sangue gotejando nas entranhas da terra e ela, aflita, corria para alcançá-lo e pedir para que parasse...
O homem sentiu o coração pesada e uma brisa primaveril penetrou sua alma. De alguma forma misteriosa, ela estava ao seu lado. A batalha acabou e ele venceu. Voltou para seu reino com herói e um sentimento de vazio cravado na alma. Naquele ano, a primavera chegou triste... Ela passeava pelos campos e conheceu a morte despropositada dos campos de batalha. Não teve forças para doar a vida como sempre. A mulher conheceu a ira.
Mas, seu coração, estava imbuído de pureza e surgiu a primavera, nem tanto resplandecente, devido a dor no coração da mulher. Ele olhava os campos além de seu reino e sentiu saudade de algo... Sentiu uma perda forte e viu sangue de prata se esvaindo. Ele não sabia mais ouvir as plantas crescerem. Esquecia-se da magia que ela havia lhe presenteado... O verão chegou morno e sem vida. O outono tinha um ar sombrio e o inverno cheirava à morte. Os homens sentiram o efeito do inverno seguro. E, de novo, a primavera resplandeceu em ouro. Assim que ela viu seu lar limpo comemorou e sentiu prazer em ouvir as árvores crescerem e deixou cores radiantes por onde passou. Ela viu um caminho que não conhecia e ouviu as plantas e deu um pouco de sua vida. Ela não ouvia os animais. Por isso, ela não viu o cavalo negro com o cavaleiro de prata. O cavalo se assustou e derrubou o cavaleiro. Ela ouviu o pulsar das veias. O animal se acalmou. O cavaleiro estava ferido e a mulher retirou o elmo. Ela sentiu um aperto na alma. Pegou a espada, que pesou em suas mãos e a largou quando viu um leve pulsar róseo no coração do homem e correu. Outro homem se aproximou e viu um emarfanhado de folhas e flores correr.
Uma tempestade se formou e os homens estranharam o mau tempo. Seu coração entendeu que ela estivera perto dele. Ele olhava a tempestade que se aproximava. Sua mãe se aproximou e o olhou carinhosamente. Sabia da melancolia do filho, mas, ele precisava se casar... - Filho... - Eu sei. Suspirou. Como a veria de novo? Ela estava sentada e chorava orvalho. O que era aquilo? O orvalho saía de seu corpo. Nem mesmo a chuva ajudou... Por que estava assim? E a luz rósea? Ela não reparou na criatura que se aproximou, uma espécie de fauno meio homem. - O que você tem? Ela nem reparou na presença de outro ser, que não estava só, mas, ela não sabia falar. Suspirou. Ele viu o orvalho. - Então, é você que está causando esta confusão? Que confusão? - Você é esquisitinha... Bem, vou tentar ajudá-la. Os outros estão malucos. Você deve ser muito amada... Amada!? O que é isso? Ele viu o coração dela e soltou uma gargalhada. - Você está amando! E quem é ele? Algum ser do ar? Fogo? Água? Ele ouviu um barulho. Era o homem. Ela quis ir até ele. - Um humano? Essa não. E você é a alma da floresta e dos campos... Ele está... O fauno se assustou e se escondeu entre os arbustos. - Ela já viu, não é? Pela Deusa... Vocês não podem... É impossível. Além do que, você é mudinha...
O homem a encontrou. O fauno se foi. - Por que você quis me matar? Ela mostrou o rastro de morte. - Justo. Olha, eu preciso me casar e eu gostaria de que você... Ela entendeu porque lia o coração dele. Ela não podia. Não tinha carne. - Eu posso ir para seu mundo e você não pode vir para o meu? O desespero tomava conta dele. Ela tocou o coração dele e retirou uma flor e a entregou para ele. Ele passou a mão pelo rosto dela. Ele suspirou e ela não entendia. - Você nem mesmo fala... Ele se sentou em uma pedra. Ela encarou seus olhos sem enteder. Então, ele reparou na flor: a mesma flor solitária do inverno, azul pálido, quase branca... Seus corações estavam ligados. Ela a puxou para si num gesto de desespero. Todas as criaturas mágicas observavam. Mesmo que ela não soubesse, aqueles seres a conheciam e a amava. O fauno observava apreensivo. Afinal, ele tinha espalhado as boas novas... Ela não reparou e nem poderia saber que vários pares de olhos estavam atentos, prestava atenção aos sons mágicos das batidas do coração dele. O que era aquilo? Ela olhou para ele e o tocou.
Ele sentiu uma descarga energética, voou e caiu desmaiado. A mulher correu para ele. Os seres olhavam e pode se ouvir uns oohs e ahs na noite. O orvalho dela caía em seu rosto e uma gota caiu em sua boca. Ele acordou. Um suspiro de alívio percorreu aquele canto da floresta. Ele a tocou. Se ele, ao menos, pudesse levá-la com ele... Ela ainda ouvia o pulsar das veias dele. Ela quis tocar de novo. Ele segurou os frágeis dedos dela. E riu. - Está bem. Acho que você não vai me matar... Ela tocou e penetrou seu coração e uma gota de sangue veio em seus dedos e o sangue prateado dela se misturou com o sangue do homem. Aquele sangue a transformou. A mágica se fez e ela tinha carne. Ouvia todos os sons que não conhecia: a água que corria, os sons das corujas, o vento que balançava as árvores. Ela sorriu e o tocou... - Não adianta... Ela ouviu o som triste da voz dele. Era uma voz suave e forte, um som que ela pensou que não existisse. A mulher o beijou com graça. Ele viu, surpreso, uma mulher, a mais bela de todas. - Você... Ela riu. O homem a levou para seu reino e se casaram na floresta, onde o coração dela estava. E, na noite enluarada, ela concebeu. Era verão e deu à luz a uma menina na primavera seguinte. O seu coração se entristeceu ao ohar tão poucas flores... Ela amava o homem e seu mundo, mas, seu coração pertencia às florestas, bosques e jardins.
O homem via com pesar os extensos olhares que ela lançava pela janela. Ele estava desolado e triste. Sua mãe apareceu. - Deixe-a ir. Ela não pertence a este lugar. Eu também a amo. Ela é diferente de nós. Não me encare assim... É a maior demonstração de amor que você pode dar: o direito de ser livre. Ela estava na janela, suspirando, com a criança no colo. Ela a abraçou. - Vai, você é livre. - Na próxima primavera quando a criança estiver mais independente. Ele a abraçou com força. - Eu nasci para isso... Meu coração vai estar sempre com você. O tempo passou rápido e mais uma primavera chegou. Ela se despediu da filha e deu um beijo suave no homem. - Obrigada por me ensinar sobre o amor e os sentimentos. Deu uma flor azul pálida para ele. Virou-se. Entrou na floresta. Foi uma primavera como há muito não se via: perfumada, alegre e colorida. Toda primavera, ela aparece para ver a filha e dar-lhe presentes espirituais para que ela não se esqueça de sua origem mágica. E em todo inverno, ele encontrava uma flor solitária azul pálida, quase branca, sinal de esperança de que, um dia, estaria juntos novamente. A mulher o observava e ele sentia seu cheiro, o espírito presente... Um dia, no inverno, a menina perguntou sobe a mãe. Ele a colocou no colo e contou a estória sobre A Mulher de Flores. Por ora, o homem se encontra ao lado dela. Eles são um só, em Espírito.